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    Isenção do IRPF até R$ 5 mil: 17,8 milhões de beneficiados, e sete estados concentram o ganho

    O governo divulgou 20 milhões de beneficiados pela ampliação da faixa de isenção, sem abertura por estado ou município. A DataBrasil estimou o impacto cidade a cidade a partir da Rais e do Novo Caged — e o resultado não é geograficamente neutro.

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    Quando o governo federal propôs ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda de R$ 2.428,80 para R$ 5.000 mensais, comunicou uma estimativa nacional: cerca de 20 milhões de beneficiados. O número circulou sem abertura por estado nem por município — e é justamente essa abertura que diz a um prefeito quanto da folha da sua cidade está em jogo.

    A DataBrasil estimou o efeito nos 5.570 municípios, a pedido do Poder360.

    O que a estimativa encontrou

    NúmeroSignificado
    17,8 milhõesde vínculos formais potencialmente beneficiados no país
    30,8%do total de vínculos ativos
    7 estadoscom mais de 30% dos trabalhadores formais beneficiados — todos no Centro-Sul

    Os sete são Espírito Santo, São Paulo, os três estados do Sul, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. São Paulo lidera em número absoluto, com 5.765.932 vínculos que deixariam de ter retenção de IR.

    O padrão inverte a intuição de política redistributiva: Norte e Nordeste são os menos impactados, e pelo motivo mais simples possível — a renda ali é mais baixa, então boa parte dos trabalhadores já está dentro da faixa isenta atual. Quem não paga imposto não ganha com a isenção. A conclusão não muda ao medir por percentual de trabalhadores com carteira assinada ou por percentual da população: nos dois recortes, o ganho se concentra no Centro-Sul.

    Como o cálculo é feito

    O imposto incide sobre a renda tributável, não sobre o salário bruto — e a diferença entre os dois é o que define a fronteira real da isenção. Descontado o INSS, a faixa atual de R$ 2.428,80 corresponde a um salário bruto de aproximadamente R$ 2.643,00, e a proposta de R$ 5.000 corresponde a cerca de R$ 5.592,58. É esse intervalo que a estimativa mede.

    A base é a Rais 2023, último ano completo disponível, atualizada pelas contratações líquidas do Novo Caged até julho de 2025. A Rais é o que permite estimar a distribuição salarial, porque informa o estoque de vínculos; o Novo Caged sozinho não serve para isso, já que publica apenas o fluxo de admissões e desligamentos e não enxerga quem permaneceu no emprego sem movimentação no mês.

    Aplicada a distribuição salarial de cada município às faixas atingidas — metade da faixa de 1,5 a 2 salários mínimos, a faixa de 2 a 3 inteira, e três quartos da faixa de 3 a 4 —, chega-se ao total de potenciais beneficiados de cada cidade. Em Diamantina (MG), o exemplo da nota técnica, isso dá 22,88% dos vínculos: 2.780 dos 12.154 empregos formais do município.

    A estimativa mede vínculos formais, não CPFs nem declarantes. É o recorte que existe com abertura municipal — e é o que responde à pergunta do gestor: quanto da folha da minha cidade entra na medida.

    Por que a nossa conta dá menos que a do governo

    A diferença — 17,8 milhões contra 20 milhões — tem explicação identificável, e ela está no desconto simplificado. A legislação permite abater 25% do rendimento mensal, até R$ 607,20, sem comprovação, e mais de 55% dos contribuintes optaram pela declaração simplificada em 2024. Isso deixa isentos alguns contribuintes com rendimento acima de R$ 5 mil, que a nossa estimativa não captura. Deduções legais com dependentes, pensão, saúde e educação produzem o mesmo efeito.

    Na direção oposta, dois fatores empurram a estimativa para baixo: trabalhadores com dois vínculos podem ultrapassar o teto ao somar as rendas — efeito pequeno, já que menos de 10% dos formais têm múltiplos vínculos —, e rendimentos de aluguel ou trabalho autônomo podem elevar a renda tributável, o que segundo o Ipea responde por menos de 5% dos rendimentos na faixa de 3 a 5 salários mínimos.

    Nenhum desses fatores é regionalmente enviesado. Eles deslocam o total nacional, não a distribuição entre estados — que é o que a nota técnica se propõe a medir.

    Por que isso importa para os municípios

    A prefeitura não legisla sobre imposto de renda federal. Mas a medida chega à cidade por dois caminhos concretos, e em ambos quem tem o número na mão chega antes.

    O primeiro é a renda disponível. Em municípios do Centro-Sul com alta formalização, uma parcela grande da folha local passa a reter menos imposto, e isso reaparece no comércio, no serviço e — com defasagem — na arrecadação de ISS. Saber se a sua cidade está acima ou abaixo dos 30,8% nacionais é o que separa uma projeção de receita de um chute.

    O segundo é o debate público. Uma medida federal com efeito regional desigual vira pauta local assim que a comparação com a cidade vizinha aparece. O gestor que já sabe quantos trabalhadores da sua cidade são beneficiados discute com número próprio; o que não sabe responde à versão de terceiro.

    Sobre este estudo

    A estimativa parte da Rais 2023 (última edição completa; a de 2024 saiu parcial, sem os vínculos de órgãos públicos) atualizada pelo Novo Caged de janeiro de 2024 a julho de 2025, ambos do Ministério do Trabalho e Emprego, e toma como referência o Projeto de Lei nº 1.087/2025. As limitações metodológicas estão declaradas na íntegra na nota técnica, com os fatores que ampliam e os que reduzem a estimativa separados.

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